Destaque Perdidos na Tribo

Perdidos na Tribo – Ep. 8 – Uma criança à beira da morte!

14 - May consolou-me e limpou-me as lágrimas

O que viu

Lágrimas

Com o final do programa a aproximar-se, os nervos dão cabo dos participantes. Fernando está esgotado e, enquanto fala para a camara, descamba em lágrimas. Os Hamer não lhe perdoam nada e o grau de exigência leva o jogador a pôr tudo em causa.

Já junto dos Nakulamene, Mafalda percebe que, quanto mais faz, mais lhe é exigido. A tribo funciona por chantagem e ela passou de “bestial a besta” num instante, apenas porque o sutiã de palha a magoa e não o usa de vez em quando.

Já com os himba, senti-me insultada por me quererem tirar a roupa à força. Mas, para eles, a minha resistência prende-se com vergonha das suas vestes. Nunca entenderam que, apesar de os respeitar e apreciar, o meu coração jamais seria himba (como, aliás, o de todos nós).

Desculpas

Claudia e Fernando tiveram de ir pedir desculpas ao chefe da tribo Hamer e implorar que lhes fosse permitido usar as suas vestes. Porquê? Não acredito que ser considerado um Hamer fosse assim tão importante. Acredito muito mais que, caso não o fizessem, a estadia se tornasse insuportável já que eles, para além de brutos e rudes, talvez os excluíssem completamente.

O que me espantou de todo foi o ponto de vista de Io Apoloni: eles deviam ter-lhe pedido desculpas também! Porque carga de água? Não fez a tarefa de espalhar a bosta por eles, o que fez foi decidir cumprir o castigo e tentar impor a mesma postura aos companheiros…

Sagrado

Em Vanuatu a subida ao vulcão sagrado foi um momento especial para todos os elementos. Dizem os Nakulamene que é o local onde se encontram os seus antepassados e que Mafalda tinha com ela um espírito muito forte. A actriz deduziu que fosse o seu avô, que sempre a acompanha, e ficou bastante mais calma a partir desse momento.

Já na Namíbia, apenas aos homens foi permitida a subida à montanha sagrada… mas levaram-me também, para ficar a assistir á subida. Gozaram comigo! A ideia foi minha mas quiseram mostrar-me o quão impotente e insignificante era por aquelas bandas.

Nota: Há lá imagem mais feia do que esta? Uma Hamer a ser maquilhada pela Cláudia que, amorosa, lhe disse que estava linda….

O que não viu!

Eu e as crianças

Eu e as crianças

Não imagino o meu bebé aqui. Em Okohonga funciona uma hierarquia que privilegia os homens em relação às mulheres, e estas em relação às crianças. Os homens comem primeiro, depois as mulheres e – se sobrar alguma coisa – comem as crianças. Por norma rapam os restos secos dos tachos…

Os restos do caldeirão que as crianças comiam

Os restos do caldeirão que as crianças comiam

Hoje mesmo, ao terminar de comer uma maçã que me foi dada pela produção, atirei para longe o caroço. De repente, passa por mim uma criança de 3 anos a correr imenso, pegou no caroço e comeu tudo! Nem o pauzinho sobrou!

Os pequenitos estão sempre a ser enxotados, têm que se levantar para os homens se sentarem, pastam o gado e andam sempre a cumprir ordens e pedidos dos mais velhos. Brincam no chão ao lado da fogueira, com lama, pedras e paus. É rara a noite em que um deles não senta o rabinho nu em cima das brasas, se queima e leva toda a noite a chorar…

As crianças sempre perto da fogueira

As crianças sempre perto da fogueira

Também entre eles funciona a lei do mais forte… quando se zangam, a tribo incita a luta e as crianças atacam-se até que uma delas acabe no chão a chorar. Os cães, muito magros, infestados de doenças, cheios de chagas e lombrigas, partilham o espaço de brincadeira das crianças.

Os cães infestados partilham brincadeiras com os pequenos

Os cães infestados partilham brincadeiras com os pequenos

 

 

Visita surpresa

Pela noite chegou uma das 5 filhas do Matheusa (são nove ao todo). Saíu de Okohonga com 4 anos e já tem 14. Fala inglês fluentemente, veste-se como na Europa e sonha com Cristiano Ronaldo. Muito disponível e simpática, pediu para lhe pintar as unhas como as minhas, um vestido e se lhe podia comprar um telemóvel. Ri-me… Mas, pelo menos, ensinou-nos algumas palavras que nos permitiu melhorar a nossa comunicação. E anda sempre perto de nós, fascinada com o que fazemos e com as nossas coisas.

Vestida com roupa minha e eu com as roupas himba

Vestida com roupa minha e eu com as roupas himba

 

Gnomeia, a visita surpresa

Gnomeia, a visita surpresa

Pintou as unhas como as minhas

Pintou as unhas como as minhas

21 Abril – Quinta-feira – 15ª Dia – 12.30h

Quase tragédia

Faltam 7 dias! Iupi! Hoje a Gnomeia, em inglês, contou-me a história do filho mais novo do chefe, seu irmão. Parece que o ano passado esteve às portas da morte e ninguém sabia o que ele tinha. Chorava de dia e de noite, estava muito magro e esteve semanas a fio com diarreia… Salvou-se e hoje é um garoto robusto e inteligente. Se tivesse falecido seria o 2º filho de Matheusa a morrer… já lhe tinha morrido um bebé de meses há 2 anos….

A mãe destes 8 filhos já não está por aqui faz alguns anos… Parece que vive numa aldeia distante, tem estado muito doente e ela seguiu para lá com o intuito de ajudar. Daqui a umas semanas voltará para Okohonga e será Gondhi, a segunda filha que a substituirá na outra aldeia… Talvez porque é das mais velhas e ainda não tem filhos… Na ausência da mãe, os filhos foram criados pela segunda mulher de Matheusa. Esta madrasta é mais nova do que alguns dos filhos do chefe, apesar de ele ter mais de 60 anos.

Kumwy esteve às portas da morte

Kumwy esteve às portas da morte

É difícil “chegar” até esta criança… é muito irrequieto, muito independente e só aceita mimos do seu pai, em cujo colo descansa com frequência. Mas ontem à noite, estava eu sentada numa pedra, ele começou a brincar comigo e a abraçar-me. Mais tarde, já no meu colo, acabou por adormecer… Esse foi um dos momentos mais especiais que vivi em Okohonga!

 

22 de Abril – Sexta-feira – 13h – 16º dia

Rebentam-me os nervos

Ontem à noite, à lareira, as himbas falaram-me ao coração. Percebi que a sua sensibilidade respeitava a minha resistência ao ocre e às vestes. Mas, porque já me consideram uma das suas, pediam-me para usar as suas vestes e ocre sagrado dos poucos dias que restam até à partida. Não faço ideia de como serão quatro dias envolta em tudo aquilo, com o cheiro, o desconforto, o peso daquelas tralhas… Mas não tive coragem de lhes dizer ”não” e fazer-lhes a desfeita. Estas gentes dão muito do pouco que têm, merecem que faça esse sacrifício por uns dias. Foi o que pensei para mim.

Já me tinha mentalizado quando, esta manhã, nos chamaram para a cabana delas. Mas não me passava pela cabeça o que estava prestes a acontecer… Tinha posto um vestido para ficar com os braços e pernas livres. Calculava que iria começar a minha transformação himba. Entretanto, já tinha seleccionado uns calções justos e um top preto para colocar por baixo da vestimenta, para quando chegasse a hora. Mas a hora era aquela e eu não sabia…

Começaram logo a puxar-me o vestido para cima para me colocarem as saias. Lá vesti aquilo, sempre prometendo que logo que fosse possível tiraria o vestido. Mas para elas não chegava, tinha de o tirar ali e ponto final! Insisti que não. Foi então que uma delas – a Matakura – se passou dos carretos e começou a tentar tirar-me o vestido à força. Naquele momento eu só sabia que o vestido não iria sair e ponto final! Tinha 2 opções: ou lhe pregava um estalo valente, saia dali, fazia as malas e voltava para a casa; ou agarrava-me ao vestido com quantas forças tinha e ela acabaria por desistir…

Com Mutakura, que quase me rebentou com os nervos na mudança para himba

Com Mutakura, que quase me rebentou com os nervos na mudança para himba

Dei por mim a não conseguir controlar as lágrimas… A violência e a raiva que vi nos olhos daquela mulher, nunca os conseguirei descrever… Porque me obrigavam daquela maneira a despir e a fazer algo que eu não queria?

Desde que aqui cheguei tenho ouvido falar tanto de “coração himba”. Onde estava ele agora? Será que, ao contrário do que eu pensava até aqui, o exterior é que conta? Basta vestirmos, falarmos e agirmos como elas e seremos himbas, mesmo que no interior estejamos numa profunda infelicidade?

Tive que me afastar logo que consegui. Precisava de estar sozinha… pela cabeça passavam-me mil coisas e não conseguia controlar as lágrimas e os soluços. Estava muito ferida por dentro. As câmaras acompanhavam-me e eu não conseguia estar só 5 minutos para me recompor…

Agora, à distância de umas horas, não guardo qualquer rancor. Este povo não tem, em princípio, desenvolvido capacidade para mais… Não tem noção do real alcance do que fizeram nem da forma tão intensa como me atingiram… até tive pena da May, uma gordinha que eu simpatizo muito e que me limpava as lágrimas e tentava consolar…

May consolou-me e limpou-me as lágrimas

May consolou-me e limpou-me as lágrimas

Depois da transformação

Depois da transformação

Os rapazes ficaram assim

Os rapazes ficaram assim

 

O próximo episódio – a despedida – foi muito emocionante!

Não percam! 🙂

 

 

 

 

 

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