Destaque Perdidos na Tribo

Perdidos na Tribo – Ep.5 – Cabana de cocó e… carraças no corpo!

A escrever diário 2

O que viu

Desta vez achei o “Perdidos na Tribo” violento e agressivo. Já sabia de antemão que as coisas iam “azedar” (tomando a minha tribo como exemplo) mas, pelos vistos, foi geral!

Com os Nakulamene (Vanuatu) a matança do porco à paulada foi impressionante e levantei as mãos ao céu por ter estado bem longe dali naquele momento. Quase que se liam os conflitos interiores do Zeca e do Luís entre a desaprovação a tal violência e a necessidade extrema de carne para matar a fome… e tudo isto debaixo de uma saturação enorme de dias e dias de chuva à qual nada escapa! Se, em muito momentos (e em especial em relação á comida) senti “inveja” deles, desta vez senti solidariedade e compaixão. Bravo, tribo, fiquei orgulhosa! E o que me ri daquela coroa de folhas de palmeira que enfiaram cabeça abaixo do Zeca? Parecia trazer um arbusto inteiro, tipo sombrero verde, e só se via a ponta do nariz? Demais…

E se com eles foi mau, pior ainda com os Hamer (Etiópia)! Nem a gargalhada contagiante do Kapinha (que parece resistir a tudo com destreza e boa disposição) conseguiu aligeirar o ambiente cortante que por ali se viveu nestes dias.  Celebrações e orgulho para levar… vergastadas! Como é que é possível? A dor é um sintoma físico, que ultrapassa raças e culturas… ou dói ou não dói! E não acredito que aquelas mulheres não sintam dor com tais chibatadas! Coitadinha da Cláudia, estava chocada. E não é para menos! Até dá vontade de entrar televisão a dentro e abanar aquelas criaturas, para ver se acordam para a vida! Qual orgulho, qual quê! Aquilo é burrice! E depois, vêm os homens que, para provar que são machos e adultos, dão meia dúzia de saltecos por cima dos bois… mas aquilo lá custa alguma coisa? Sinceramente…

No meio disto tudo, felizmente que os Himba (Namíbia) são pastores e muito pacíficos. De outra forma, o tinha sido violentamente vergastado. Sei o que lá se passou mas confesso que nunca me passou pela cabeça que os elementos da minha tribo fossem tão perspicazes! Toparam o Castelo Branco a léguas, sem o conhecerem de lado nenhum nem sequer perceberem o que dizia. Achei sempre que, na maioria das vezes, o seu ímpeto manipulador estaria a fazer efeito sobre eles mas, pelos vistos, enganei-me… e lá vem caindo a máscara ao meu amigo, episódio após episódio… tantas vezes o avisei mas ele convenceu-se que os himba o achavam o máximo e não me deu ouvidos. “Nunca deixarei de ser o mesmo José Castelo Branco” repetiu vezes sem conta. E eu, que no fundo até gosto dele, tenho pena que assim seja.

Obrigadas a espalhar ocre para construir a cabana

Obrigadas a espalhar ocre para construir a cabana

O que não viu

Cabanas e Carraças

9º dia – 13 abril – 15h (continuação)

Ontem andámos de volta da bendita barraca. Primeiro fizemos vários buracos, espetámos os paus, atámo-los, enfim… foi toda a manhã só para montarmos a estrutura de base daquela treta! O sol estava abrasador e a voz do já me pareciam estilhaços nos ouvidos… aquilo já de si não foi fácil e ele não parava de dar ordens e sugestões mas sem sujar uma unha. Os himba, que estavam especialmente irritados ontem, gritavam com ele e eu já só rezava para acabar aquele martírio depressa…

Quando o sol começou a ficar demasiado forte parámos para descansar um pouco. Senti-me imunda. Quase arrisco a dizer que estava com nojo de mim. Saí disparada da aldeia, peguei na mochila com um braço, no Zé com o outro e arrastei tudo para o rio.

Lá fomos rio acima e finalmente encontrámos uma poça minimamente limpa e à sombra. Pousei tudo, enfiei o biquini e regalei-me com a água fresca, corpo abaixo. Nem consigo descrever a situação: enchi a garrafa vezes sem conta! Só era preciso algum cuidado pois havia girinos do tamanho de azeitonas, sempre prontos a entrar lá para dentro.

Quando me estava a despir, encontrei uma caraça agarrada ao meu peito. Metade já estava lá dentro, nem queria acreditar… Foi o Zé quem a arrancou. Durante uns minutos fiquei ali a pensar no estado miserável em que eu estava: se me tenho lavado todos os dias e apanhei caraças, o que seria se andasse a cumprir a estúpida regra de não tomar banho?

 

Esta manhã já não foi tão tranquila – cabana outra vez! E já só sairíamos dali quando terminássemos. O problema é que a cobertura da cabana – com bosta de vaca e terra, só cabe às mulheres (olha que surpresa)…

Quando pegava nas bostas elas defazíam-se e vinha-me um cheiro nauseabundo. Só que virando a cara para o lado, já as himbas me estavam a chamar à atenção… Para elas isto é tudo normal: fazem cara feia ao meu cheiro de perfume mas deliciam-se a esfregar bosta vermelha na cara. Para fazerem chichi, apenas abrem as pernas, tal como as vacas que cirandam por aqui. Nem sacodem, seguem caminho como se nada fosse! Quando suam escorrem gotas vermelhas, que elas aproveitam para esfregar no corpo.

Tarefa cumprida! estávamos um caco...

Tarefa cumprida! estávamos um caco…

 

Eu e o Zé

14 Abril – 15h – 10º dia

É importante referir que sempre que escrevo à tarde, debaixo desta árvore, o está deitado ao meu lado a papaguear-me aos ouvidos: as castas, o status, o decorador, as pessoas “chiquíssimas” que conhece (e que trata sempre pelo último nome, referindo que pertence à família não-sei-das-quantas)… tudo lhe serve de assunto.

O Zé não suporta o silêncio. Então crava-se aqui a falar como se não houvesse amanhã. Continuo a escrever sem tirar os olhos do papel mas ele parece não se importar e lá prossegue, empolgado, como se eu lhe estivesse a dar a máxima atenção. Com o Zé sinto-me sempre assim: por um lado irrita-me profundamente o seu egocentrismo e recuso-me a ser cúmplice dele. Mas, por outro, dá-me pena porque sinto que é extremamente solitário e carente. Quando tenho paciência (e ele consegue ter uma conversa lúcida) dou-lhe atenção e julgo vislumbrar ali qualquer coisa de humano e integro… mas logo a seguir faz qualquer coisa idiota e fútil que me tira do sério! Ora pega numa criança e lhe dá mimo (à sua maneira), ora “escraviza” outra para lhe carregar as coisas. Digo-lhe tudo como os malucos, à minha boa maneira fria e seca! Fica sempre chocado e magoado comigo – como se já não me conhecesse de ginjeira – refila e diz que já não quer ser meu amigo! E eu olho-o como se fosse um garoto a fazer birra, deixo que lhe passe, e acalento a esperança que mude, um dia…

Sábado – 16 Abril – 12º dia – 10.30h

Tensões e brincadeiras

O ambiente aqui não é o melhor. Algo se passa com a tribo mas eles não se abrem muito. Ou melhor, nós é que não os entendemos… Pelo que percebi, envolve o chefe Matheusa e o nº2 – o Karinamua. Não estão de acordo em alguma coisa, que não sabemos o que é – e passaram os últimos dois dias a reunirem-se. Todos se juntam em redor do chefe, ele fala sem fim e o Karinamua escuta, em silêncio, com uma expressão prostrada.

Matheusa vs Karinamua

Matheusa vs Karinamua

Como não há nada que possamos fazer para ajudar, vamo-nos divertindo como podemos: eu e a Vera apanhámos a produção distraída e começámos a brincar com câmaras e microfones. É sempre uma alegria quando chegam! Não que nos prestem particular atenção, pelo contrário. Mas, pelo menos, temos a falsa sensação de que não estamos tão sozinhos…

Raros momentos em que apanhámos a equipa distraída e brincámos com o material

Raros momentos em que apanhámos a equipa distraída e brincámos com o material

Mas também nos dão grandes desilusões. Numa das saídas para uma tarefa, eu e a Vera estávamos mortas de fome e sede, estava um calor infernal! Mas, para as himbas que estavam connosco, apareceram como que por milagre umas bebidas energéticas! E nós a ver e a babar… e por falar em babar, estou espantada comigo. Então não é que dou comigo a escarrar à futebolista, a limpar as axilas com folhas de árvore, a falar à brutamontes e, ainda, a engolir moscas sem querer (e a considerá-lo normal)? Onde é que isto vai parar???

Á socapa tirei esta foto - as himba a beberem redbull e nós a assistirmos sedentas

Á socapa tirei esta foto – as himba a beberem redbull e nós a assistirmos sedentas

O que vem aí

Ainda…

  • Torturados com uma tarefa de intercâmbio de culturas, não resistimos a quebrar as regras;
  • A primeira noite na cabana nova, a sincronia de movimentos e o descalabro que leva à fuga;
  • José Castelo branco volta a fazer das suas e põe okohonga em alvoroço!
  • Discussões e desentendimentos em torno de… batatas!
  • Ou doam todos, ou não doam… todos! As diferenças de pontos de vista.

Á frente

  • Tudo á batatada! Salvos por um grito na noite…
  • Um segredo nunca antes revelado que me compromete gravemente;
  • O sofrimento atroz (e silencioso) das crianças;

A não perder o próximo “Perdidos na Tribo”!

 

 

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