Destaque Perdidos na Tribo

Perdidos na Tribo – Ep.4 – Esvaziar tripas… e passar fome!

O que viu

O fosso entre homens e mulheres vai-se acentuando nas tribos. Enquanto eles parecem não se importar, elas reagem de forma diferente: umas aceitam, outras revoltam-se e até há quem vá dando para os dois lados.

A tarefa de trincar piolhos em Vanuatu parece ter corrido bem ás meninas. A mim enojou-me só a ideia mas para Joana e Mafalda, que tinham sido obrigadas a comer larvas, aquela foi uma brincadeira de crianças. E eu ainda me queixava… para o bom e para o mau, nós só tínhamos a farinha!

Em honra do Sérgio os himba mataram uma cabra. Asfixiá-la, tirar-lhe a pele e cortá-la aos bocados foi, claro, tarefa para os homens. E as mulheres? Ficaram com a parte pior. Ainda consigo sentir o cheiro nauseabundo das tripas da bicha e do que lá estava dentro. Como queriam que, depois disso, conseguisse comer a carne?

Dizia a Io: “Deve haver uma razão muito forte para eles terem aquelas cicatrizes”. Sim, para alguns, serem (e manterem-se) belos é uma razão de vida que justifica qualquer coisa. Mas pensava que esse era um defeito da nossa sociedade, nunca pensei que já tivesse chegado à Etiópia… Tal como a falta de educação: “Cala-te velha” não foi bonito de se ouvir por parte das hamer a Io Apolloni.

Enquanto na Namíbia continua a luta pela higiene (banho, nem vê-lo!), na Etiópia o grupo dá uso à roupa de praia, com alguma água de presente. E depois, lá vem Vanuatu, com água para dar e vender onde se mergulha e brinca com o assunto. Ai que inveja!

Uma vez sensual, sempre sensual! Nem no fim do mundo Cláudia perde o seu poder de sedução natural e põe os homens da tribo Hamer em acesa discussão para ver quem fica com ela. E nem o facto de estarem convencidos que é feiticeira os demoveu! Por isso, sem saber, é (ainda) mais maltratada pelas mulheres. Pudera!

Finalmente Kapinha deixou de ser tratado como um idiota e conquistou o merecido respeito ao derrotar um homem hamer numa luta. José Castelo Branco tentou fazer o mesmo na Namíbia, mas não correu bem. Parecia uma mistura de Panda do Kung Fu (em Channel) com os lutadores de Matrix. O que eu me ri nesse dia…

Será que o grupo de Vanuatu vai descer da casa da árvore? Ou ser expulso dos Nakulamene? Percebo a revolta perfeitamente, eu também não trocava aquela mansão pela barraca abafada que lhes ofereceram. Só que no nosso caso a escolha era mais simples: não havia outra coisa!

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O que não viu

7º dia – 11 Abril – 11.30h

Comida nova: bolo e cabra

Finalmente lá chegou o pai do Kamba e pedi que me levasse a buscar ovos. Parece simples mas, na verdade, só consegui que percebesse depois de cacarejar vezes sem fim, fazendo uma figura tão triste que outros himbas se juntaram para assistir ao “espectáculo”. Chamou o filho para ir comigo à sua aldeia e, quando chegámos é que percebi que, afinal, eles só tinham mesmo uma única galinha. No entanto, debaixo da bichana preta com uma crista azul esperava-nos uma surpresa: o Kamba, com a sua mãozinha pequenina e sorriso encantador ia tirando um a um e conseguimos 13 ovos. Que maravilha!

Kamba - o menino dos ovos

Kamba – o menino dos ovos

Quando chegámos a Okohonga, infelizmente, não havia todos os ingredientes de que precisava. Aqui não existe um frigorífico ou uma dispensa para as cozinheiras se servirem. Cada uma guarda o que pode, sabe Deus onde, e só vai buscar os alimentos ao esconderijo privado quando tem ordem para cozinhar.

Além disso, estava na hora de matar a cabra! E eu, tive que ir limpar as tripas do bicho juntamente com a Vera… Que azar! Especialmente porque eles lembraram-se de pôr fim à desgraçada depois de ela ter almoçado. Eram quilos sem fim de bosta ainda líquida, cujo monte ali ficou mesmo ao lado da carne cozida, que queriam que eu comesse. Como se não bastasse, ainda guardam umas partes nojentas, que penduram nas árvores a secar. Ora eu, que já não gosto de borrego nem cabrito, e ainda tinha de estar ali no meio! Quem é que consegue comer? Nem toquei na carne…

Com este cenário debaixo do nariz...

Com este cenário debaixo do nariz…

Os quilos de bosta que tirámos da cabra, à mão!

Os quilos de bosta que tirámos da cabra, à mão!

...quem é que consegue comer?

…quem é que consegue comer?

8º dia – 12 Abril – 16h

Finalmente lá consegui reunir os ingredientes para o meu bolo. Sentei-me no chão e comecei pelos ovos. Abri o primeiro, o segundo e… trazia “brinde”! Tinha pinto lá dentro, bem como todos os que lhe seguiram. Que desilusão! Confesso que fiquei alguns minutos em estado de choque! Tinha acabado de matar 12 embriões de pintainho para nada! E sobrava um ovo que, ainda por cima, devia estar cheio de salmonelas.

Como sou teimosa, decidi fazer o bolo na mesma mas sem ovos. Não fazia a mínima ideia do que ia sair dali, só sabia que tinha que comer algo, e rapidamente. Com a ajuda da Vera e do (que pouco mais fazia senão meter o dedo na suposta massa e lamber), la se fez uma massa aceitável. Claro está que, depois de muitas tentativas, o que saiu foi uma espécie de areia doce e rija. Mas o facto é que a fome já não dava tréguas e passámos a comer aquilo todas as tardes.

Seduções falhadas

A noite passada, assisti a algo diferente. Já estava deitada e a passar pelas brasas quando ouvi barulho. Na outra metade da tenda, estava uma jovem sentada. Começou a despir aquelas milhentas coisas que trazem sempre penduradas e besuntou-se com qualquer coisa de cheiro forte. Quando terminou manteve-se sentada, imóvel, por alguns momentos. Como nada acontecia levantou-se, enrolou-se num trapo e ficou em pé, do lado de fora da porta. Percebi que estava à espera de alguém. Impaciente, voltou a entrar. Resmungava baixinho e foi quando eu percebi quem era: a Keripura, irmã dos Tirambi! Ao longe, entretanto, começaram os cânticos. Como que resignada com o facto de o “príncipe” não ter aparecido voltou a vestir tudo, levantou-se e foi juntar-se à festa.

Já o irmão Tirambi, anda tão encantado com a Vera que até participa numa brincadeira nocturna que ambas fazemos sempre à noite: Pegamos na câmara de mão e, enquanto eu ando a filmar, Veríssima faz a novela mexicana do romance, com lágrimas e promessas de amor à mistura. Ele acha piada e responde com o “I love you” de sempre, aproveitando para a abraçar e beijar. Depois ela farta-se e enxota-o. O rapaz, frustrado, lá vai fazer a ronda às cabanas das himbas.

Keripura, irmã do Tirambi, não conseguiu consumar a paixão

Keripura, irmã do Tirambi, não conseguiu consumar a paixão

Ontem, logo por azar, a Vera saiu primeiro para dormir e foi dar com ele dentro da nossa própria cabana com outra. Ficou chocada e veio de lá aos gritos ao meu encontro. E lá tivemos as duas que fazer tempo à porta, à espera que o seu apaixonado terminasse de satisfazer outra mulher. A avaliar pela cara da Vera, cheira-me que nos próximos dias não vai haver “Novelle”…

9º dia – 13 Abril – 15h

Acidentes

A Vera lembrou-se de fazer milho cozido e conseguiu um pequeno tacho para o efeito.. A este propósito descobri o quão fraca estava: como a fogueira não ateava, baixei-me para soprar. Soprei, soprei, soprei… e depois só me lembro do grito da Vera e de sentir um ardor na mão. A miúda conta que, depois de soprar, levantei-me e pus as mãos na cara. Comentei entre dentes que estava tonta, cambaleei e caí para a frente, de gatas, mesmo em direcção à fogueira. A minha sorte foi que a Vera me amparou e desviou as brasas que conseguiu com o pé.

Andava de volta da fogueira quando desmaiei de fraqueza e ainda queimei a mão

Andava de volta da fogueira quando desmaiei de fraqueza e ainda queimei a mão

Tinha desmaiado. Por pouco não arruinava a minha vida, tivesse eu caído com o corpo ou o rosto na fogueira. Apanhei um valente susto! Enquanto a doutora me tratava da mão ia pensando no que poderia ter acontecido. A mim e ao Sérgio! É que, na noite anterior, também ele escapou por pouco. A cabana era pequena para tantos homens e o nosso recentemente nomeado líder decidiu vir dormir para a rua. A meio da noite as vacas, que andam por aqui à mistura connosco, saíram a correr para cima deles e foi por milésimas de segundo que não ficou esborrachado debaixo de 500 quilos de carne!

O que vem aí…

Ainda…

  • Os quatro recebemos um prémio que esperávamos há muito. Mas o sacrifício para o conseguir é apenas das mulheres… e mal cheiroso!
  • No desespero fujo rio acima, munida de uma mochila, disposta a tudo! O que encontrei foi muito compensador na altura mas custou-me mais um castigo!
  • Á roda com os tachos e a fogueira preparo um menu muito especial. Só que não era para nós! Até fiquei mal disposta com a situação e não consegui evitar a saliva a escorrer…
  • Dou comigo a fazer coisas impensáveis! Cuspir para o chão, assoar-me à futebolista e encarar com naturalidade o facto de engolir… moscas!

 

Á frente…

  • Como dormem quatro e as malas num espaço para dois.
  • A polémica acende-se e reúne toda a tribo por causa de um… cocó!
  • “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.A chegada de um alimento novo faz as nossas delícias… e também gera a discussão.
  • Momento de doar algumas coisas: uns de coração (longe das câmaras) outros pela razão (e e na presença delas).
  • As crianças são as que passam mais fome: lembram-me os sem abrigo a apanhar restos dos caixotes do lixo.

 

Não perca o próximo “perdidos na tribo”

Perinaua!

 

 

 

 

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