Destaque Perdidos na Tribo

Perdidos na Tribo – Ep. 3 – Homens, mulheres … e amantes!

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O que viu

A vida nas tribos vai ficando cada vez mais difícil! Mais para uns do que para outros – como é óbvio – mas percebe-se que a paciência começa a estoirar com mais facilidade, tanto do lado dos convidados como dos anfitriões.

O entusiasmo dá lugar ao cansaço, mas ainda há quem mantenha a boa disposição mesmo perante o assédio eminente! Veríssima, ao seu estilo, acompanhou os manos Tirambi e as vacas para um dia de pastagem. Mas enquanto os animais procuravam erva fresca, os manos saíam em busca de… carne fresca! E as maminhas novas da Vera – das quais ela sempre falou com a maior das naturalidades – eram um atractivo demasiado forte para dois jovens em idade de pujança. Bem que ela chegou ao pé de mim ofegante, balbuciando que tinha sido apalpada e quase violada! Gesticulava, nervosa, e garantia-me que nunca mais estaria sozinha com aqueles dois! Mas, afinal, até levou a situação com descontracção, sentido de humor e ainda me arrancou umas valentes gargalhadas. Boa, miúda!

Enquanto isso José Castelo Branco não acha graça à tarefa da recolha da água. Como sempre, esperava ser idolatrado num reconfortante banho de lama, rodeado pelas lavadeiras de serviço e saiu-lhe o tiro pela culatra! Elas são brutas – e eu sei disso melhor do que ninguém – mas aquela reacção dele foi um total exagero e chegou a chocar-me. Sorte a dele (e nossa) que os himbas são um povo do mais pacífico que há. De outra maneira, cheira-me que elas lhe tinham deslocado o botox das bochechas para a testa…

Neste episódio, tocou-me especialmente a tribo Hamer, da Etiópia. Ou melhor, o que penaram os desgraçados que lá foram parar. Toda a (pouca) água que usam naquela terra vem… da boca. Até para lavarem as mãos o líquido é cuspido! Fernando, cuja boa disposição é de louvar na nossa terra, esteve sempre a ser criticado por sorrir. Aliás, tanto ele como Kapinha têm sido sempre tratados como inúteis pelos homens da tribo, que os criticam ferozmente e perdem a paciência com eles. Ainda bem que eles nãos os percebiam senão teriam andado bem mais desmotivados…

Depois, de assinalar as 7 vezes (mais coisa, menos coisa) que ouvimos a Io Apoloni dizer que tem 66 anos e 4 hérnias! É óbvio que nem ponho em questão a dureza da tarefa, especialmente para uma senhora da sua idade, com os seus problemas de saúde. Mas pareceu-me, francamente, que a “montanha estava a parir um rato” e se fez um filme em torno de uma única cena.

Em Vanuatu o grupo apresentou-se bastante coeso e muito mais corajoso do que seria de esperar! Mafalda Teixeira é brilhante, uma corajosa silenciosa, que gasta mais tempo a fazer e menos a apregoar. Impressionou-me a forma concentrada como segurou a galinha para a Joana bater, a atitude pouco espalhafatosa com que comeu a larva (e sabe Deus com que esforço) e a postura simples e humilde com que acata o que lhe é pedido. Não é para qualquer uma, não senhor!

Já a Joana fez-me rir porque me lembrou aquele senhor de um programa qualquer de tv – cuja expressão ficou sobejamente conhecida perante o desafio de ter uma iguana na cabeça: “Ponha, ponha, ponha!”, dizia ele em pânico. Assim foi a Joana com a necessidade de comer uma larva. Fraca de estômago, coitada, mas muito esforçada!

Admiro-os no meio dos Nakulamene e invejo a união de grupo que transparece nitidamente! Ou fazem todos, ou não faz ninguém, e isso é um desafio enorme numa circunstância como a que se lhes apresentou. E eles, até aqui, mostraram a sua raça!

Finalmente, uma nota para o banho que foi oferecido ao Sérgio. Até me vieram as lágrimas aos olhos ao vê-lo com o Hevita e a cumplicidade que se gerou entre eles.  Ali começou uma amizade como vi poucas nos meus 33 anos de vida… Explico tudo já a seguir!

O que não viu

6º dia – 10 de Abril – 16h

Uma noite pavorosa

Esta noite foi uma das provas mais horríveis pelas quais já passei! Seriam umas três e meia da manhã quando desatou a chover desalmadamente. Comecei a sentir pingas na cabeça, daquelas fortes e grossas. Não teriam passado dez minutos e chovia dentro da cabana tanto quanto chovia lá fora! A Vera acordou assustada. “Vamos abrigar-nos debaixo do saco-cama, pode ser que passe rápido e logo decidimos o que fazer” disse, com a voz mais calma que consegui para não a alarmar. O tempo passava, a chuva não parava e rapidamente passou o saco-cama. Estávamos ambas ensopadas até aos ossos e não se via maneira do cenário mudar tão cedo.

Começámos a tremer de frio, não podíamos ficar ali mais tempo! Chamei uma das três meninas que partilhavam a barraca connosco e pedi-lhe que me levasse ao chefe da tribo. Espreitei à porta. Matheusa estava sentado, apoiado no cajado. Não chovia ali, e o espaço era bastante mais amplo do que o da maioria. Não precisei falar muito. Ele olhou para mim e percebeu o meu estado. Levantou-se a custo, enrolou-se num trapo velho e lá foi falando na sua linguagem, enquanto me puxava pela mão em direcção a uma outra cabana mais à frente. Não percebi se me consolava ou resmungava…

Era uma cabana que fazia de armazém da tribo, com tecto de chapa, onde a chuva não entrava. A Vera chegou, tão encharcada como eu. Deitámo-nos, seguindo o gesto imperativo do chefe. Depois, de um saco grande tirou um cobertor – cheio de pó mas muito fofinho – e cobriu-nos com ele. Percebi nitidamente que era o seu “cobertor especial” pela forma como o manuseava e senti-me lisonjeada. À saída, pediu à rapariga que tinha ido connosco para ficar ali sentada em cima de uma caixa. E ela, tão encharcada como nós, ali ficou ao escuro. Senti o coração apertado! Queria dizer-lhe para se deitar ao nosso lado mas não havia mais espaço… E por mais que lhe pedisse para voltar para a sua cabana ela não arredava pé dali! Angustiada, enrolei-me na Vera e no cobertor e acabei por adormecer…

Quando acordei ela já não estava. Corri para a nossa barraca e o espectáculo era desolador… tudo sujo, molhado, cheio de lama, largado… fiquei devastada e senti-me, pela primeira vez, verdadeiramente perdida! A roupa já tinha secado no meu corpo e decidi concentrar-me no lado positivo da questão: o rio seco que eu tinha visto a umas centenas de metros já devia ter alguma água, pouca que fosse. Ora enganei-me redondamente! Nesta terra tudo é seco, não há hortas nem árvores de fruto.

O tesouro de Sérgio

As mulheres himba nunca se lavam e os homens fazem-no de quando em vez. E hoje foi um desses dias, já que queriam premiar o Sérgio com um “banho”. Lá foi ele, perante o meu olhar de inveja, em direcção ao rio com o Hevita. Incrível a relação que desenvolveram entre eles, num tão curto espaço de tempo. Parecem compreender-se na perfeição, muitas vezes só com o olhar, e é rara a movimentação que o Sérgio faça que não chame o Hevita para o acompanhar, ensinar ou ajudar. E é igualmente raro que este não esteja por perto e sempre disponível para acudir o amigo. Impressionante!

O Sérgio está a sofrer bastante com as saudades de casa. Não é um homem muito expansivo, e ainda é menos se o que estiver em causa são as emoções. Está habituado a ver-se rodeado das suas mulheres – de quem obtém todos os mimos – e aqui acaba por sentir-se sozinho. Já o Hevita é um himba muito especial: Sorri com facilidade, é muito calmo e prestável e chego a sentir que tem pena de nós ao ver-nos debater com as dificuldades de integração. O Hevita não percebe porque razão o Sérgio é tão cuidadoso no banho já que não quer mulher…

Hevita, o grande amigo do Sérgio!

Hevita, o grande amigo do Sérgio!

 

O pai da criança

A explicação é simples: As mulheres não se lavam por uma questão de tradição. Ponto final. Quanto os homens mais velhos, também não os vejo tomar banho. Apenas os mais jovens têm este hábito. Porquê? Pois bem, na tradição himba os homens podem ter duas mulheres e, em situação excepcional chegam a ter três. Mas estes – os que se casam – são apenas os mais velhos, e normalmente com mulheres muito jovens, na casa dos 20 anos.

Estes casados apenas dormem com uma mulher de cada vez, por noite, na sua cabana. O que significa que as esposas, alternadamente, estão livres e dormem na cabana das outras mulheres. E é nestas noites que lhes é permitido ter amantes! E quem são estes? Os rapazes mais jovens, aqueles que tomam banho diariamente, não são casados e limitam-se a ir “apagar os fogos” destas mulheres.

E que grande confusão isso dá! Em primeiro lugar porque, assim que anoitece, é um frenesim de barraca em barraca. Rara é a noite em que vou para dormir e, quando chego á barraca com o saco-cama em punho não dou de caras com um cenário de orgia e tenho que ficar à porta à espera que acabem o “serviço” ou vão pregar para outras freguesias. Confesso que, nessas noites, me deito sem ousar olhar onde estou a poisar para não me assustar. Depois porque, não usando estas almas nenhum tipo de contraceptivo, só conseguem saber se os filhos são do marido (ou não) quando eles são crianças mais crescidas e vão ganhando feições deste ou daquele.

 

7º dia – 11 Abril – 11.30h

A bosta e a criança

Há pouco fiquei completamente embasbacada. Tinha acabado de pisar uma bosta (uma das muitas que já tinham passado pelas minhas botas) e estava completamente irritada e a praguejar quando, ao lado do pau com que a limpava vejo uma mãozinha pequenina. Era um rapazinho de 4 ou 5 anos que, de gatas, limpava sorridente a minha bota. Pedi-lhe, atrapalhada, para não o fazer mas ele mostrou uma expressão tão triste que tive de o deixar continuar…

Foi este o menino que limpou a bosta da minha bota

Foi este o menino que limpou a bosta da minha bota

Tinha um sorriso lindo, cheio de vida e muito meigo. Fui tentar saber quem era junto da tribo e descobri que aquela criança era familiar do chefe mas estava ali sozinha, sem os pais. Fiquei chocada e percebi então porque o via sempre sozinho… tentei abraçá-lo mas ele desviava-se bruscamente ao meu gesto. Comecei a pensar se aquela criança não seria maltratada e desprezada por alguns elementos, pelas reacções que tinha… e estava a reflectir sobre isto quando, mesmo ao nosso lado, um dos homens dá uma chibatada tal num dos cães enfezados que por ali circulavam que o miúdo dá um salto e eu senti-me estremecer com os ganidos agonizantes que o bicho dava.

16 horas

Cabelo novo para Castelo Branco

A esta hora dá-me sempre mais jeito escrever. É a hora de maior calor, quando todos se abrigam. Nós costumamos optar pelas sombras das árvores, em cima de plásticos, e aproveito para escrever. O que não é fácil! Enquanto a Vera e o Sérgio dormem a sesta, o aproveita para se maquilhar, fazer sobrancelhas e tagarelar imenso. Mesmo que eu não tire os olhos do papel ele continua a falar como se lhe estivesse a dar a máxima atenção. Hoje está especialmente irritado. Na tentativa de ficar mais bonito (e de esconder a falta de lavagem do cabelo) pediu às himba que lhe fizessem um penteado parecido com o delas, com trancinhas. Ainda andou com aquilo umas horas. Mas depois meteu na cabeça que partia o cabelo todo e decidiu tirar. Quando se viu ao espelho ia-lhe dando uma coisa mas já não havia nada a fazer, só lavando! Perante o seu desespero preguei-lhe com dois ganchos, um de cada lado tipo totós, mas ele não ficou convencido que estava belo, apesar de ter acatado a minha sugestão.

Os himbas acompanhavam-nos até na hora da sesta

Os himbas acompanhavam-nos até na hora da sesta

 

Castelo Branco faz novo penteado mas arrepende-se logo a seguir!

Castelo Branco faz novo penteado mas arrepende-se logo a seguir!

Lembrei-me de fazer um bolo! Fartei-me de pensar no que poderia oferecer a este povo (e a nós mesmos) com os escassos recursos existentes. Existe farinha de milho, que eles próprios fazem a partir do que plantam a uns metros daqui. Existe leite das vacas e açúcar (que julgo que trazem periodicamente, quando vão à cidade mais próxima). Também têm gordura, a banha com que se besuntam. Só faltam os ovos!

Todos os dias o pai do Kamba (um menino que adoro) vem a Okohonga, vindo da aldeia dele bem próximo daqui. Há dias o Sérgio foi com o Hevita a essa aldeia e viu um galo. Ora, se existe um galo também deve haver uma galinha! Está feito, vou esperar que o Kambana apareça por aqui. Não deve tardar, é sempre a esta hora. Mas posso esperar para me deliciar com bolinho!

O que vem aí…

Ainda

  • Descubro que sou menos forte do que pensava. Um acidente quase me destrói e sou salva graças à coragem (e gritos) da Vera;
  • Como fazer um bolo sem ovos! Uma receita pavorosa cuja tentativa de concepção saiu falhada mas deu origem à salvação de desmaios e a uma relação muito especial;
  • A noite traz muitas surpresas agradáveis e… desagradáveis. Sérgio quase é atropelado por vacas depois de uma atitude altruísta e solidária;
  • Uma mulher foge aos rituais de acasalamento e tenta um jogo de sedução muito ocidental.

 

Mais para a frente

  • Os quatro recebemos um prémio que esperávamos há muito. Mas o sacrifício para o conseguir é apenas das mulheres… e mal cheiroso!
  • No desespero fujo rio acima, munida de uma mochila, disposta a tudo! O que encontrei foi muito compensador na altura mas custou-me mais um castigo!
  • Á roda com os tachos e a fogueira preparo um menu muito especial. Só que não era para nós! Até fiquei mal disposta com a situação e não consegui evitar a saliva a escorrer…
  • Dou comigo a fazer coisas impensáveis! Cuspir para o chão, assoar-me à futebolista e encarar com naturalidade o facto de engolir… moscas!

 

Não perca o próximo “Perdidos na Tribo”

Os castigos e os prémios vão dar que falar!

 

 

 

 

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