Politicamente (in) Correto

Politicamente (in) Correto! – Ep.2 – “Não procure ser rico mas, se o for, então viva como se não fosse”.

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Nesta rubrica vou transcrevendo, semanalmente, trechos de livros que vou lendo.

Apesar destas palavras serem politicamente incorretas – para mim – fazem todo o sentido!

Continuamos no Livro da Serpente.

Trabalho vs Criação

(…) Voltei à questão dos ricos defendendo a necessidade da sua existência no bom equilíbrio das sociedades, pois proporcionam trabalho a muita gente, só que pareceu-me ver a mestra franzir o sobrolho antes de me responder:

– Ao contrário do que vocês foram levados a pensar, os seres humanos não se encontram na terra para trabalhar mas para criar. A palavra portuguesa “trabalho” originou-se de um vocábulo latino cujo significado é “castigo” ou “tormento” e esse castigo nada tem a ver com a vontade de Deus, mas, antes, com a astúcia de alguns humanos que engendraram condições sociais propícias à exploração dos outros.

(…) ao fazer um cesto de vime o artesão está a criar; ao pintar um quadro o pintor está a criar; (…) e ao moldar qualquer peça de barro o oleiro está também a criar, não se sentindo nenhum deles fatigado ou castigado por isso.

O mesmo não sucede com o operário que aperta as porcas das rodas, numa linha de montagem de automóveis, ou com a costureira cuja função é, simplesmente, a de coser as peças de vestuário numa fábrica de confecções, porque estes estão a produzir algo de forma fragmentária, impessoal e anónima.

Os primeiros são recompensados, até pela alegria da realização da obra a sair completa das suas mãos, enquanto os segundos sentem a frustração e o cansaço provocado pela ausência de identidade com o resultado do esforço, ainda por cima destinado a produzir quantidade e não qualidade, portanto alheio à necessidade criativa do trabalhador.

Produzir cada vez mais, para vender mais, para pagar mais, para vender mais, para voltar a produzir mais, não passa de um ciclo vicioso e provocador de grave alienação mental, ainda por cima responsável pela destruição da Humanidade e do planeta por transformar qualquer indivíduo apanhado por esta engrenagem num verdadeiro destruidor da natureza e lobo dos outros indivíduos.

(…) Por isso lhe dou o seguinte conselho ou regra de vida: não procure ser rico mas se o for, então viva como se não fosse…

(…) Recordemos que estava um alentejano sentado à sombra de uma árvore, pelas 10 horas da manhã de Verão, quando foi interpelado por um turista dos estados Unidos da América que, em termos ríspidos, o admoestou por o bom do homem preferir descansar a uma hora do dia destinada ao trabalho.

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O alentejano explicou ter um pequeno barco no qual se fizera ao mar ainda de madrugada, passara algum tempo na faina tendo conseguir pescar alguns peixes que vendera num dos restaurantes da praia, por isso é que estava a descansar àquela hora da manhã.

Voltou à carga o norte-americano, tentando fazer-lhe crer tratar-se de um procedimento errado pois, caso voltasse ao mar, poderia pescar mais peixes e vendê-los a outros restaurantes, conseguindo obter mais dinheiro.

Meio surpreendido, o pescador perguntou-lhe para quê.

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Se o fizesse, explicou-lhe o turista, poderia comprar outro barco, pescar mais peixe, conseguir o dinheiro suficiente para pagar a pescadores que pescariam mais ainda, permitindo-lhe comprar até uma frota pesqueira.

Levantando a aba do chapéu, com os olhos semicerrados devido à luz do sol, o alentejano de Vila Nova de Mil Fontes voltou a perguntar para quê.

Descontrolado com a pergunta a parecer-lhe eterna, o sobrinho do Tio Sam berrou-lhe que era para, alguns anos depois de tanto trabalho, já senhor de uma poderosa fortuna, poder finalmente descansar.

“E o que é que eu estou fazendo?” – perguntou-lhe o alentejano, no seu falar cansado, pondo fim à conversa.

“O Livro da Serpente”. Victor Mendanha, Editora Pergaminho, 1ª edição 1997,  página 65 a 68

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