Big Brother

Big Brother 1- Ep.4 – Um alentejano solitário!

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Nos primeiros dias estava mais atenta, mais observadora e resguardada, e senti imediatamente que o Zé Maria era uma pessoa diferente.

Sentimos todos, quanto mais não fosse pelos hábitos que ele tinha, que eram hábitos diferentes dos nossos – a sesta que ele gostava de preservar, as coisas a que dava valor, a sua extrema sensibilidade – e de alguma forma senti que ele tinha um quê de solitário enraizado nele, talvez pela vida que levava.

Não o conhecia – viria a conhecer mais tarde – sentia que ele estava a ter algumas dificuldades, apesar de se esforçar, em se integrar naquele espírito urbano que todos nós partilhávamos. E senti-me um pouco inclinada a dar-lhe mais atenção, a ser mais cordial com ele (sem ser impositiva), a dar-lhe a entender que eu estava ali se ele precisasse de alguma coisa ou quisesse conversar. Isso fez-me sentir bem e útil.

O , desde o princípio que, perante as dificuldades em conseguir chegar às pessoas (ou talvez não fosse dificuldade, talvez fosse o ritmo dele que era mais lento) e de os outros chegarem até ele, refugiava-se um pouco nos afazeres diários, no cuidar das plantas, cuidar das galinhas, da horta. Ele gostava.

Mas eu achava que ele exagerava, fazia-o tempo de mais… era como se falasse com todas as plantas, com os animais, com tudo aquilo que não se podiam opor a ele ou intimidar. E dessa forma ocupava o seu dia e a sua cabeça.

Essa distância e essa forma de estar, meia aluada, tornou o Zé Maria numa pessoa muito querida de todos nós. Porque, ao contrário do que muita gente pensa, todos tínhamos muito carinho por ele. E até quando brincávamos ou ironizávamos com ele, faziamo-lo com carinho, não o desrespeitando, porque ele aceitava as brincadeiras. E até entrava nelas de alguma forma, não sei se para agradar ou não.

Era essa a sensação que ele transmitia. Mas não senti nesta fase qualquer atrito ou choque, ou que o fosse uma vítima dos outros. Seria talvez uma vítima dele próprio, da vida que levava, que era realmente diferente e distante.

In “Os Segredos da Casa”, 2010, Marta Cardoso

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