Memories

Quem era a Marta antes de entrar para o “Big Brother”?

33

Era uma rapariga alegre, acho eu, divertida, que tinha muitos sonhos e não sabia muito bem como os concretizar.

Julgo que a dada altura da minha vida me senti perdida. Em várias, até… E esse foi, sem dúvida, o meu primeiro grande desafio.

Era Maria-rapaz e cultivava essa faceta. Era mais fácil assim: se eu me mostrasse forte (e inatingível, muitas vezes) a probabilidade de as pessoas me magoarem era menor. E eu, se as magoasse, tinha a desculpa perfeita. Era honesta, curta e grossa, ninguém estava enganado comigo!

 

Não tinha, portanto, o mínimo de maturidade (embora achasse que sim) para perceber que a franqueza tem limites, especialmente se a usarmos mal, pois essa não deixa de ser uma forma de nos impormos aos outros (por um lado), usarmos sentimentos que sabemos que têm por nós e, ainda, não respeitar a liberdade alheia. Aquele “Eu sou assim! Quem gosta, gosta. Quem não gosta põe à borda do prato”, levado à letra, é uma forma de anarquia. Se todos a pusessem em prática, viver em sociedade seria um caos…

O mundo era um desafio para mim e as conquistas eram obrigatórias! Se pensar bem, ultrapassar limites e provar (acima de tudo a mim mesma) que era capaz, era a minha meta diária.

 

Mas a minha juventude sempre fora bem estruturada, sabia exactamente aquilo que queria: formar-me em medicina. E porquê? Porque apesar da minha falta de estudo e de empenho (tinha sempre coisas mais divertidas para fazer), conseguia muito boas notas e comecei cedo a sonhar com a medicina, em ser cirurgiã plástica.

Mas quis o destino que eu não entrasse em nenhuma das faculdades de medicina por 2 décimas de valor e, com 18 anos, vi-me pela primeira vez confrontada com um sentimento de fracasso, coisa que até ali não tinha acontecido. Sempre que tinha alguma iniciativa as coisas corriam bem, fluíam naturalmente. Eu esforçava-me e empenhava-me e a verdade é que o sucesso tinha estado do meu lado ao longo da minha (até então curta) vida. Naquela altura senti-me completamente desamparada e revoltei-me. Já não queria saber da faculdade e achei que era altura de correr o mundo: ter a minha independência e ver o que era possível alcançar tendo apenas o 12º ano. Fiz um pouco de tudo: trabalhei em pizzarias, onde fazia distribuição de mota, distribuía jornais de madrugada com a carrinha do meu pai, trabalhei em lojas, em restaurantes e fui eu que paguei a minha carta de condução, depois de trabalhar dois meses durante as férias da escola. Todas estas pequenas coisas me davam prazer e um sentimento de concretização e objectivo cumprido.

Também gozei bastante esta fase. O meu pai tinha negócios nocturnos e eu comecei a frequentar discotecas muito cedo. Divertia-me bastante, tendo em conta aquilo que os colegas da minha idade faziam.

A dada altura, depois de ter andado mais de três ou quatro anos a saltar de emprego em emprego, não me sentia realizada, não me sentia minimamente feliz com a vida que tinha. Sentia que não estava a construir nada. Olhando para trás, vejo que o meu maior medo era chegar à idade que tenho hoje – pois na altura achava que as pessoas aos 33 já eram velhas – olhar para trás e encontrar um vazio…. Decidi, então, que devia voltar a tentar ir para a faculdade, embora o curso de medicina estivesse já posto de parte.

Sempre gostei de números e de matemática, o curso de economia talvez fosse uma boa opção e lá consegui convencer os meus pais a pagar-me a licenciatura, na Universidade Lusíada. Estudava à noite, porque não abdicava do meu emprego que me permitia pagar as contas: o carro e o gasóleo, os cigarros e a minha vida social implicavam algumas despesas. Por isso (pensava eu) o melhor era estudar à noite. Mas estava enganada.

O curso de economia é muito exigente e, com a minha vida social e o trabalho em paralelo, os estudos não correram bem. Após pouco mais de meio ano cheguei à conclusão que, apesar de gostar muito de números, eles prendiam-me num mundo demasiado fechado, monótono e sem emoção. E como eu sentia necessidade de me expandir, de falar, de conhecer o mundo e estar com pessoas, tive de ganhar coragem e dizer as meus pais que aquele curso, afinal, não era boa ideia.

E foi assim que os meus pais decidiram que nunca mais embarcariam nas minhas projectadas concretizações, pois custara-lhes meio ano de propinas numa faculdade privada, em vão.

Continuei a trabalhar e à procura de um caminho, até que a minha mãe me despertou. Sempre fora uma pessoa muito atenta, calma e discreta, que me apoiava em tudo aquilo que eu queria fazer, mesmo que não estivesse de acordo (e a perceber nitidamente que eu ia por o pé na poça). Sugeriu-me que estudasse comunicação social, pois era curiosa, empreendedora, criativa e muito correcta. “São os atributos de um bom comunicador e o curso de comunicação social é ideal para ti”, dizia. Não foi preciso muito para me convencer… Um problema para alguém da área de ciências que agora pensava num curso da área de letras. Teria de fazer o exame nacional de historia, geografia ou de filosofia, cadeiras que eu não tinha desde o 9º ano.

E convinha preparar-me, porque a faculdade privada já estava fora de questão. Os meus pais estavam divorciados. O meu pai não concordava e a minha mãe também não tinha possibilidades sozinha, nem queria voltar a arriscar pactuar comigo em algo que poderia ser novamente um erro. A única alternativa era ser admitida numa faculdade pública e, para isso, tinha de me preparar para os exames nacionais: estudar a matéria toda desde o início do 10.º ano, enquanto fazia um novo 12.º ano. E correu melhor do que eu esperava. Nos exames nacionais consegui tirar 18 valores, fiquei com 17,4 de média e fui a primeira aluna do meu curso a entrar, com a nota mais alta no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, curiosamente ao lado da faculdade onde tinha tentado tirar economia…

E foi assim o meu último ano antes de entrar para o BB. Trabalhava num bar do meu pai, estudava durante o dia para conseguir pagar as contas, e os meus pais davam uma ajuda.

 

Um dia, na TV, vi o José Carlos Araújo (na altura ainda muito novinho) a fazer uma apresentação de algo que se chamava Big Brother. Era um resumo com cerca de 40 minutos, onde se explicava o que era o «Grand Hermano» espanhol, que tinha acabado de chegar ao fim em Espanha. As imagens eram muito apelativas: gente jovem, muita festa, brincadeira e diversão e, no final, fazia um apelo para as pessoas concorrerem. O programa chamou-me a atenção e comentei com um amigo que, em segredo, me inscreveu pela internet.

Não muito tempo depois recebo em casa uma série de folhas A4, já não me recordo quantas eram. Mas eram muitas, com seguramente mais de 100 perguntas. Era um questionário de uma produtora chamada Endemol, responsável pelo programa em Portugal e que abrangia tudo: desde o mais relevante ao (aparentemente) mais insignificante. Não me lembro de nenhuma em particular, porque eram todas muito estranhas: medos, fobias, tipos de reacção em determinadas circunstâncias, etc. Apesar de ser uma pessoa optimista nunca achei que me iam escolher para um concurso daqueles, e depois as perguntas eram tão tontas que eu achei que só mereciam respostas tontas, com toda a ironia e humor que me ocorreram na altura. Salvo erro (e foi a minha irmã que me lembrou isto) respondi enquanto conduzia e ela escrevia. De seguida enviei-o para a Endemol e nunca mais me lembrei daquilo.

Até que recebi uma chamada para uma entrevista em Lisboa. Queriam confirmar pessoalmente algumas das respostas do questionário. Foi a primeira vez que vi o Vasco Rolão Preto, esse grande senhor (e ser humano) que acabou por me acompanhar, e a todos os colegas na casa do BB, e que nos aturou muito naquele confessionário. Ele estava lá, a entrevistar o grupo de pessoas que foram chamadas. A entrevista era filmada e estava muita gente. Não me recordo de ninguém em especial, mas sei que foi a única vez que vi outras pessoas que tinham concorrido ao mesmo que eu. Daí para a frente nunca mais vi ninguém. Todas as provas, todos os testes, tudo aquilo a que fui submetida, fi-lo sozinha (e vim a saber que o mesmo tinha acontecido com os outros residentes).

Saí dali, sem qualquer tipo de expectativa. Mas foram-me chamando de quinze em quinze dias para provas psicológicas, testes psicotécnicos, exames médicos e provas de esforço. Sempre sem me cruzar ou ver ninguém…

Afinal, estávamos a ser submetidos a todo o tipo de testes e o início do programa aproximava-se. Não sei exactamente quando é que percebi que havia a possibilidade real de ser uma das escolhidas para participar naquela aventura, longe de tudo durante quatro meses, fechada com pessoas que eu não conhecia e com um prémio final que eu não sabia exactamente como era atribuído. Acho que só mesmo perto do início do programa (ou mesmo lá dentro) é que percebi que não era um teste de resistência para ver quem aguentava mais… Era um programa com um vencedor escolhido pelo público. Houve momentos em que achei que quem aguentasse os quatro meses ganhava os vinte mil contos. Cheguei a pensar que o prémio fosse dividido pelos resistentes que ficassem lá até ao fim. Pensei em tantas coisas….

Mas o que achava muita piada era ao facto de estar longe do apoio familiar, fora do meio onde costumava mover-me e já sabia como agir, e onde conhecia as pessoas e as regras. Tudo aquilo era muito novo e a possibilidade de ser escolhida fazia-me sentir que era um privilégio que não podia recusar… tantos queriam ou gostariam estar no meu lugar… Cerca de uma semana antes do início do programa fui ao hotel Roma, em Lisboa, onde elementos da produção da Endemol me receberam e comunicaram que tinha ficado como suplente do programa. Enquanto subíamos de elevador até um piso superior, lembro-me de pensar: “Se eles acham que vou assinar um contrato para ser suplente estão enganados, não quero. Ou vou, ou ponho isto de parte. Não quero ser suplente nem viver na expectativa de um dia poder vir a integrar esta aventura por substituição de alguém que teve um infortúnio ou outra coisa qualquer”.

Estava neste reboliço quando se abriram as portas do elevador e algumas pessoas esperavam-me com uma garrafa de champanhe. Gritaram: “Foste escolhida!!” e uma câmara saltou em cima de mim com um foco de luz que me toldava o equilíbrio. Meia atordoada pensei “E agora o que é que vou fazer? Isto implica uma serie de mudanças para as quais não estou preparada…”, enquanto várias pessoas me falavam e explicavam coisas, elucidavam sobre o volumoso contrato que tinha na secretária à minha frente e me aconselhavam a levar o documento a um advogado. Eu não queria saber! Não tinha andado 6 meses em testes para recuar agora com questões legais e receios patetas!

Resolvi o que tinha de ser resolvido. Meti licença no trabalho, que continuaria depois dessas «férias», como lhe chamava. Tinha as contas mais ou menos asseguradas. Passei uma procuração ao meu pai para fazer a inscrição no 2º ano da faculdade, e lá fui eu parar ao hotel de cinco estrelas, onde passei os três últimos dias.

Dias de vigilância apertada pelos elementos da produção, que não nos largavam para terem certeza de que não nos cruzávamos nem soubéssemos quem eram as outras pessoas que iam partilhar a casa connosco. Levei a minha mãe e deram-me um envelope com trinta contos. Os outros também tinham recebido o mesmo envelope, com notas para gastar naqueles três dias, em alimentação e outras coisas que eram necessárias. A minha mala já estava pronta, havia apenas últimas filmagens para fazer.

 A primeira vez que saí do hotel fui comer a uma pizzaria com a minha mãe, mas estava excitada que deixei o envelope em cima da mesa. Cinco minutos, quando dei por falta dele, voltei para trás mas ninguém tinha visto envelope nenhum, claro…  regressei ao hotel e disse a um elemento da produção que tinha perdido o dinheiro… rapidamente apareceu outro com mais trinta contos, que foi algo que achei absolutamente extraordinário.

Trinta contos era, aproximadamente, metade do que eu ganhava num mês de trabalho e, agora, tinha-os ali na minha mão e à minha disposição, o que era uma felicidade e já justificava ter concorrido. Também nunca tinha ficado num hotel de cinco estrelas, era a primeira vez. Achava tudo uma novidade muito boa. “Pobrezinha, que mora longe” dirá o meu amigo Castelo Branco ao ler isto… Mas era verdade.

Os últimos dois dias foram passados meio alienada com o meu padrinho (como chamava ao elemento da produção que me acompanhava 24 horas por dia), a pensar no que ia fazer, como ia fazer, e se tinha tomado a decisão certa… mas havia uma vontade e um impulso dentro de mim que me empurravam para aquela situação e nunca fui pessoa de desistir. Tinha que experimentar!

E assim foi que no dia 2 de Setembro – o Big Brother começou no dia 3 mas a primeira emissão não foi directa – entrámos para o programa: um jipe foi buscar-me ao hotel, despedi-me dos meus e fui com um senhor que não conhecia, e que ia levar-me para dentro da casa. Quando estava a chegar ao Marquês de Pombal vi uma série de jipes iguais e percebi rapidamente que todos aqueles jipes tinham lá dentro cada um dos meus companheiros. Claro que a curiosidade era imensa, espreitava, tentava ver alguém, algum rosto, até à chegada à Venda do Pinheiro. Foi curioso sentir e saber que todas as pessoas que estavam naqueles carros viviam a mesma situação que eu e, portanto, não havia outra atitude possível senão apoiarmo-nos uns aos outros, estávamos juntos no mesmo barco, a aventura era a mesma. Sozinhos mas juntos.

 

In “Os Segredos da Casa”, 2010, Marta Cardoso

You Might Also Like

14 Comments

  • Reply
    Dani
    23 Agosto, 2015 at 23:49

    Excelente relato em que nos é permitido conhecer um pouco mais sobre a pessoa Marta Cardoso.

  • Reply
    sofia
    24 Agosto, 2015 at 20:24

    Adorei o relato… mas soube a pouco! Fico à espera de mais. É muito interessante ver o que estava por detrás das câmaras até porque acompanhei o BB1. Parabéns pelo blog!

    • Reply
      Marta Cardoso
      24 Agosto, 2015 at 23:51

      Obrigada Sofia, beijinho 😊

  • Reply
    Leo
    24 Agosto, 2015 at 21:24

    Isto é mesmo estranho. Ainda hoje (por acaso), estava a ver uns vídeos no youtube e apareceu-me uns vídeos da Marta a dar uma entrevista ao 5 para a meia noite, depois achei interessante e encontrei outra ao Porto Canal. E como gosto de programas do género do Big Brother, fiquei com curiosidade, principalmente quando falou numa tal ideia de escrever um livro sobre essa experiência. Já sabia que a Marta tinha escrito um livro, mas nunca tinha ligado. Entretanto, fui procurar no site wook para o comprar e vi que já não estava disponível.. E agora, umas horas depois, acontece isto… vi no site dioguinho sobre o lançamento deste blog e deparo-me com excertos do livro, woao… isto é estranho, mas excelente, queria muito ler o livro. Já agora, Marta, vai publicar mais excertos do livro? Obrigado.

    • Reply
      Marta Cardoso
      24 Agosto, 2015 at 23:50

      Ola
      Vou sim! Obrigada pelo feedback 😜

  • Reply
    Susana Sampaio
    25 Agosto, 2015 at 12:41

    Olá Marta parabéns pelo blog.
    Ainda me lembro do BB1 como se fosse hoje, vocês entraram nas nossas vidas uns mais do que outros e
    permaneceram ate hoje. Tu e o Marco eram os meus favoritos.
    Felicidades.

  • Reply
    Patricia
    25 Agosto, 2015 at 19:23

    Uma pessoa por quem senti uma enorme empatia desde do momento k entrou no Big Brother…k passei a admirar …. K defendia com unhas e dentes sempre k alguém tentava dizer algo k não fosse do meu agrado…. E k sempre correspondeu aquilo k eu defendia….e ainda hoje depois de tantos anos a admiração é mt maior … Não me conheces mas para mim és uma Grande Mulher com um sorriso de menina é um jeitinho de maluca…

  • Reply
    Patricia
    25 Agosto, 2015 at 19:24

    As minhas concorrentes preferidas eram a Marta e a Sonia …,,

  • Reply
    David S.
    25 Agosto, 2015 at 20:11

    Continuas fina e talentosa…. 🙂

    Congratz

  • Reply
    Tania
    25 Agosto, 2015 at 21:48

    A Marta sempre foi a minha concorrente preferida e confesso que chorei na sua saída!! E ainda hoje a admiro… Gosto de ler tudo o que escreve e de a ver na tv!! Um beijinho e muita sorte!!

  • Reply
    Ana
    25 Agosto, 2015 at 22:24

    Muito bem Marta, ainda me lembro de muitos momentos em que participou. Como se percebeu no bb além de ser muito comunicativa, alegre e muito simpatica conseguia sempre captar a atenção com que os seus colegas a escutavam sempre nos momentos mais críticos e já aí revelava a grande mulher que é. Parabéns e continue a ser assim. Um beijinho grande.

  • Reply
    Helena Oliveira
    26 Agosto, 2015 at 1:35

    Desde a primeira vez que te vi querida Marta identifiquei-me logo contigo 😉
    És uma Guerreira e uma Lutadora.
    Parabéns pelo excelente Blog… Está Lindoooooooooooo <3

  • Reply
    Marta Cardoso
    28 Agosto, 2015 at 6:12

    Obrigada a todos pelas palavras carinhosas!
    Espero que continuem a gostar e a acompanhar.
    Um beijinho
    Marta

  • Reply
    Marta Cardoso com "saudades" do Big Brother | SAPO Lifestyle
    25 Janeiro, 2016 at 11:57

    […] e comentei com um amigo que, em segredo, me inscreveu pela internet", refere a apresentadora, numa publicação onde conta como o programa surgiu na sua […]

  • Responder a Marta Cardoso Cancel Reply